junho 13, 2007

Francisco Parreira, aficionado, embalsamador, embolador e criador de cavalos.

Duarte Bettencourt – Como surgiu a ideia de se tornar embolador de toiros?

Francisco Parreira – A ideia surgiu numa conversa com o António Pontes, numa altura em que se estava a preparar a carteira de embolador do Vielmino Ventura.
O regulamento tauromáquico exigia dois emboladores, pois um embolador não consegue fazer o trabalho sozinho, o Pontes tirou-me o juízo e fez com que eu acompanhasse o Vielmino, tirando também a carteira profissional de embolador de toiros.

D. B. – Com quem aprendeu esta arte?

F. P. – A primeira pessoa que me ensinou a embolar um toiro foi o Vielmino, mas houve uma pessoa que foi muito importante para a minha aprendizagem, o senhor João do Sobral que já não se encontra entre nós. Ele muito me ensinou, se eu hoje sou alguma coisa na arte de embolar e de fazer a ferragem, a ele o devo.

D. B.– No que consiste a função do embolador?

F. P. – A função do embolador tem duas partes distintas:
Na corrida à portuguesa põe as bolas de couro nas hastes dos toiros, não é uma tarefa fácil, é até bastante perigosa. Quando se fala que o cavaleiro ou o matador está num perigo eminente, muito poucos se lembram que o toiro antes de chegar à arena, chegou primeiro à mão do embolador integro ou seja em hastes limpas, e quando sai da mão do embolador oferece muito menos perigo para os artistas tauromáquicos. O toiro para a lide equestre vai devidamente embolado, é um processo que não é de fácil execução e deste depende a lide do toiro. Suponhamos estar um cavaleiro numa tarde inspiradíssima, estar o toiro a cumprir de bandeira e se lhe sai as bolas da cabeça, está a tarde estragada. Fazemos o possível e o impossível para que isto não aconteça e que o toiro entra e saia da arena embolado.
A outra parte é para mim muito mais difícil e consiste no afeitar as hastes dos toiros para a corrida a pé. Por vezes geram-se algumas confusões na altura de afeitar os toiros porque cada matador, cada apoderado, cada representante tem uma maneira de ver as coisas, todos querem o menor perigo para o seu representado e nós temos de fazer aquilo que o regulamento tauromáquico permite. Nós não afeitamos os toiros de qualquer maneira, não fazemos por fazer, há uma bitola para fazer a medida correcta do afeitamento, portanto há uma regra que nem sempre é compreendida, uns acham de mais, outros de menos e nós tentamos fazer de modo que todos saiam satisfeitos.

D. B.– O embolador não tem apenas a função de embolar, tem também a confecção da ferragem a seu cargo.

F. P. – Isto é a outra faceta do embolador que poderá ser feita ou não pelo embolador, não é obrigatório que seja ele a fazer a ferragem, isto foi o juntar do útil ao agradável. Eu interessei-me também por esta parte e faço isso hoje em dia, com algum à vontade, mas nem sempre foi assim.
Fazer a ferragem para uma corrida de toiros tem muito que se lhe diga, tem as suas regras, depois a confecção da ferragem tem muito a ver com a superstição do artista, há também aquele que quer a bandarilha mais curta e aquele que quer a bandarilha mais cumprida, e nós temos de fazer um trabalho de pesquisa, temos que conhecer o artista por assim dizer. A parte mais negativa é termos de aguentar muitas vezes com o mau momento do artista, quando a ferragem cai, nunca a culpa é do artista é sempre culpa do ferro, mas nós temos que compreender isso, faz parte da festa e assim tem de ser.

D. B. – Na trincheira, com certeza já passou por situações engraçadas e outras nem por isso, situações estas que passam despercebidas ao grande público. Pode-nos contar alguma?

F. P. – O trabalho que nós fazemos na praça ou na jaula de embolação é pouco visto e não dá azo a muitas situações. Mas passou-se uma história engraçada que vos posso contar. A dada altura veio um artista tourear à praça de Angra e no dia antes da corrida, o representante deste chegou junto de mim e disse-me que a ferragem cumprida tinha que ser mais cortada, a razão dada pelo representante era que o determinado artista não tinha força suficiente para partir a ferragem, eu tinha a ferragem toda feita e não era fácil dizer que não à pessoa e disse que ia resolver pelo melhor, não fiz nada como é obvio e no outro dia durante a lide, os ferros cumpridos partiram-se antes de chegar ao toiro, agora imagine-se só que eu corto mais, não metia um que fosse.

D. B. – Sei que um dos seus maiores hobies são os cavalos. Fale-nos um pouco deles?

F. P. – Os cavalos são outra faceta que me entrou no sangue e agora é difícil de sair. Para já eu tenho cavalos porque gosto, sou proprietário de um centro equestre e sou também sócio de uma coudelaria, além disso penso que os cavalos são um investimento válido na educação dos filhos e eu tenho uma filha que felizmente gosta muito de cavalos, faz tudo pelos cavalos, e que graças a Deus nunca me deu desgostos e se calhar devo isto aos cavalos. Depois é aquele bichinho que entra dentro de nós e de repente apaixonamo-nos pela criação, que é o que eu mais gosto de fazer, pois em termos de equitação estou relativamente limitado, pouco ou nada faço, mas na criação gosto de fazer ou imaginar aquelas cruzas, que nós pensamos vir a ser o melhor poldro do mundo. Gosto de trabalhar este aspecto e é isto que me apaixona e faz com que hoje seja sócio de uma coudelaria, o Centro Equestre “O Ilhéu”, criamos cavalos lusitanos e temos conseguido obter bons produtos, porque excelentes ainda não conseguimos obter, mas vamos trabalhar para que um dia isso aconteça.

D. B.– Além de grande aficionado, criador de cavalos e embolador o Francisco Parreira trabalha também a arte de Francisco Parreira, aficionado, embalsamador, embolador e criador de cavalos. Como surgiu esta faceta na sua vida?

F. P. – Esta foi a primeira de todas, começou ainda antes de casar, ai á uns 21 anos, quando em casa do meu sogro se matou uma bezerra. Aí surgiu a pergunta porque é que não se conservava a cabeça?
O meu sogro tinha tido uma experiência com o senhor António Hilário Jerica, que está hoje emigrado no Canadá, que foi talvez a pessoa que mais fez pela arte de embalsamar nesta terra e que imortalizou muitos toiros, dos quais lembro o 71, o descornado velho do José Parreira e muitos outros. Antes de ir para o Canadá, o senhor António tinha falado com o meu sogro e tinha lhe explicado mais ou menos como se fazia o embalsamamento, nós pegamos nesta informação e fomos tentando melhorar dia após dia e hoje já imortalizamos muitas cabeças de toiros, tentando sempre melhorar para que estas sejam o mais reais possíveis.

D. B.– Qual foi a cabeça que mais gozo lhe deu embalsamar?

F. P. – Uma das que mais gosto me deu embalsamar foi a cabeça do 84 e porquê? Porque foi um toiro que merecia ficar na história da tourada à corda da ilha Terceira, foi um toiro extraordinário que pertenceu à ganadaria de José Albino Fernandes, que merece que as pessoas ainda o olhem com admiração, mesmo passados bastantes anos da sua morte.

Caixa

António Cardoso Ventura
Ao falarmos de cabeças de toiros embalsamadas não nos podemos esquecer do nome do senhor António Cardoso Ventura, que sendo filho de um lavrador, tomou o gosto pela terra e pela tradição de sua casa. Começou por construir cangas de bois, para depois as colocar por cima das suas primeiras cabeças que também eram feitas em madeira. Porém o seu sonho era de um dia poder embalsamar cabeças de gado bravo.
O senhor António Hilário Jerica, que trabalhou na fábrica de curtumes da Guarita, ensinou-lhe como é que se faziam os produtos para a conservação das peles e um dia após uma matança em sua casa decidiu junto com os seus genros embalsamar a sua primeira cabeça.
Desde ai deu em formar gosto pela arte e foi-se aperfeiçoando com o tempo.
Das muitas cabeças de toiros que embalsamou, a que mais o marcou foi a do 84 do José Albino Fernandes.
Pelas suas mãos passaram muitos toiros, dos mais célebres aos mais desconhecidos, embarcou as suas obras para quase todas as ilhas, para a América e Canadá.
Tem orgulho na sua arte, que transforma para a posteridade aqueles que um dia foram bravos e adorados pelos mortais, e sabe que ela terá continuidade na sua família com o seu neto.

in Festa na Ilha nº11

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